Quando o Velho Fauno Sentiu o Empurrão da Morte

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Fausto Bezerra Velho, professor primário e apreciador das putinhas da ladeira do Senhor do Alívio, manteve-se solteiro até à idade de 48 anos. O que leva este homem a casar com Maria do Resgate, 32 anos mais nova? E depois, por que se envolve, sucessivamente, com mais três criaditas, todas elas mal ataviadas na sua adolescência, até que um dia a morte lhe faz sentir o empurrão inevitável?

Desenrolando-se nos anos 30, quando Salazar começava a algemar a liberdade dos portugueses, esta novela é a memória de um tempo passado e dos seus equívocos.

O júri do Prémio Manuel Teixeira Gomes, ao distingui-lo, considerou Quando o Velho Fauno Sentiu o Empurrão da Morte «uma escrita delicada, quase etérea e, contudo, forte e profunda»

(In Contracapa do livro)

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ISBN

972-8925-10-7

Capa

Daniel MOTA

Excertos

Maria Secundina

Dias depois, o professor trouxe lá para casa a Maria Secundina. Tinha uma compleição insignificante. No rosto ossudo destacava-se um olhar manso, saturado de doçura. Os olhos eram escuros, lentos e grandes. Quando lhe dirigiam a palavra, antes de responder, ela fixava com demora arrastada o seu interlocutor, como se quisesse sugar-lhe as emoções. O professor irritava-se com aquela mansuetude que lhe parecia de atrasada mental. Quando lhe explicava as coisas via-a ficar queda e calma, como se sobre a sua cabeça tivesse caído um manto de neblina. Mas surpreendia-se quando, a insistências suas, a ouvia repetir tudo o que lhe dissera segundos antes. Mas estava longe de o satisfazer no dia-a-dia, sempre muito calada, quase taciturna. O professor suspirava e dentro de si sentia um remoinho de saudades: como a Julita não haveria de ter outras.

Mas tal como a Julita, a criança Secundina, já mulher composta e de decote acalorado, matada a fome dos tempos infantis e perdidos os fumos erráticos da infância, iria, ao fim de dois anos, desaparecer. Juraram vê-la, numa madrugada transitória de trovoadas secas, elevar-se atrás da casa do professor, volatizar-se e confundir-se com as nuvens brancas, no rosto o mesmo olhar manso e açucarado. Sem raivas. Apenas uma inamovível resignação.

Maria Terceneira

Veio a Maria Terceneira, um pouco atarracada, baixa de cu. A Terceneira, nascida numa mata densa de plantas rasteiras e bravias, filha de pai desconhecido e de uma mãe taranta e de pés tortos, era despachada e com muita conversa. Gostava de falar sobre o que quer que fosse e com quem quer que fosse, o que desagradava ao professor.

O empregadito da mercearia, um catraio imberbe, ainda sem ameaços próximos de barba, aparecia todas as segundas-feiras, com as compras da semana. Quando a má-língua da cidade desconfiada informou o professor que a Maria Terceneira mandava entrar o rapaz e que ele por lá se ficava longos momentos, este apareceu-lhes subitamente em casa, convencido que ela o trocava por sangue mais novo. Jogavam às escondidas atrás dos móveis e dos reposteiros.

Também esta desapareceu num dia pastoso e quente de Verão. Viram-na sair, de madrugada, tal como às outras duas, já a engordar na cintura, dissolver-se num campo de milho alto em que as folhas cortavam a cara como facas. Quem a seguiu com a vista, jurou que a sua pele se tingiu de verde e que os milheiros, após abrirem uma pequena vereda à sua passagem, a abraçaram. Tal como as outras nunca mais foi vista.

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