Proteu Político

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Prefácio

À maneira de apresentação

Há tanta gente a procurar auto-promover-se que o meu receio é que o possível leitor venha a pensar: mais um idiota ignorado a armar-se em génio incompreendido.

Mas sem prévios juízos de valor, leia as primeiras vinte páginas desta obra e, se entediado, a puser de parte, creio que dificilmente compreenderá a gargalhada irreverente que é afinal toda ela. Não foi para si que ela foi escrita.

O destinatário é aquele cidadão (ou cidadã) que, respeitando profundamente as instituições e os direitos dos outros, não deixa de satirizar (ao menos intimamente) a imbecilidade humana. Esse (ou essa) há-de rir abertamente com as cenas de farsa que nesta obra aparecem por vezes e apreciará, certamente, a violenta e sarcástica crítica social que nela surge também.

Eça em “Os Maias” pretendeu pôr tudo o que tinha no saco (carta a Ramalho).Salvo a imensa distância, também eu, também eu tentei despejar o saco (mas não despejei!) e lá veio a sátira à exiguidade do ordenado mínimo, à poluição alimentar, à inconsciência e passividade do consumidor,às condições infra-humanas de habitação, à corrupção na admnistração, aos “salvadores nacionais”, ao jornalismo nacional e regional, à vaidade tola de muitos autarcas, ao hermetismo de certo teatro moderno, à televisão, ao fanatismo político, ao luxo nas realizações do Estado, etc., etc., etc.

Que mais? Que mais?

Quem pode aceitar a tendência há muito existente para se considerar o homem como uma espécie de robot, tendência essa já satirizada por Huxley e Chaplin, entre muitos outros?

E dentro da modéstia que lhe compete, também nesta peça o Serafim encontra um meio muito seguro para acabar com a depressão económica em que vive quase perpetuamente: a matematização (digamos assim) da constituição dos casamentos.

Mais ainda?

Mais e que é quase o fundamental e atravessa toda a obra, pode dizer-se: a crítica, por vezes mesmo agressiva, à estupida burocracia que nos afoga. Ao mais alto nível até: o meu pobre e simpático presidente da república – o Marques – metido entre papéis até às orelhas! E conhecem por acaso a distinção entre burocratas finos, grossos e grosseiros? Também na obra está. E sabe qual é o futuro (e o presente!) do nosso país? Papéis, papéis, papéis, papéis..! palavras, palavras, palavras, palavras…! Lá vem também! Lá vem também! É só ter paciência para ler até ao fim.

Uma observação: a modéstia da apresentação da peça, nela própria está justificada indirectamente: eu, Geraldo Aresta, lá entro como personagem a tentar dizer que isto de apoio a possveis artistas é uma léria demagógica muito bem orquestrada. Se eles não tiverem dinheiro para se fazerem propagandear como pós de limpeza ou bebidas caras (onde é que Pessoa ou Campos estabelece a diferença entre glória e fama?), bem podem deixar de pensar que receberão qualquer incentivo para a sua criação artística, apesar de “criatividade” ser das palavras mais gastas do palrar social.

Nunca mais acabo. Mas hei-de dizer que, se misturei cenas de autêntica farsa com momentos de comédia e até de lirismo, tenho uns ilustres antecedentes, a quem não consigo atingir as botas sequer, mas que me autorizam: são eles nem mais nem menos que Aristófanes e Gil Vicente.

Outros

Contra capa

“Eça em Os Maias pretendeu pôr tudo o que tinha no saco (carta a Ramalho). Salvo a imensa distância, também eu, também eu tentei despejar o saco (mas não despejei!) e lá veio a sátira à exiguidade do ordenado mínimo, à poluição alimentar, à inconsciência e passividade do consumidor, às condições infra-humanas de habitação, à corrupção na administração, aos “salvadores nacionais”, ao jornalismo nacional e regional, à vaidade tola de muitos autarcas, ao hermetismo de certo teatro moderno, à televisão, ao fanatismo político, ao luxo nas realizações do Estado, etc, etc., etc.”

Excertos

Cenário

Uma vasta sala mobilada com gosto. Classe média, ou mesmo, alta classe média.
Esquerda Fundo, uma janela e À Direita Fundo, uma sacada de portas envidraçadas. À Esquerda Alta perto da Esquerda Média, uma porta envidraçada, mas sem uso. À Esquerda Baixa, a porta funcional que se supõe dar para o interior da casa. À Direita Baixa, a porta do exterior. Maples dispondo-se em canto redondo, da Esquerda Média ao Fundo Centro, quase até à sacada. Ao lado dos maples, antes da sacada, um pequeno móvel com gavetas sobre o qual estará o telefone. À frente dos maples, uma pequena mesa. À Direita Média, junto à porta do exterior, uma outra mesa sobre a qual estará um televisor.

MARQUES – (sentado a ler o jornal) – Isto cada vez está pior, pá! Já viste? Alencar fala em aumentar o ordenado ínimo! Balelas! Sabes de quanto?
RODRIGO – Não imagino! Uma miséria, com certeza!
MARQUES – Nem mais! Calcula lá! Calcula lá!
RODRIGO – Sei lá!
MARQUES – Quinhentos!
RODRIGO – O quê?
MARQUES – Quinhentos!
RODRIGO – Oh! Oh! Estás a gozar!
MARQUES – É o que te digo! Está aqui! ( Mostra-lhe a notícia no jornal)
RODRIGO – (Lendo) – É inconcebível! É inconcebível! Nem que aumentasse o triplo! É inconcebível! Eles deviam ter vergonha!
MARQUES – Mas o que é que tu queres? Diz que não há dinheiro para mais…
RODRIGO – Pois não! Para esses desgraçados não há! Mas olha se falta para
aumentar os deputados! E dizer que há gente que ainda ganha menos que a miséria do ordenado mínimo!
MARQUES – A quem tu o dizes! Como se eu não soubesse!
RODRIGO – E tu não podes fazer nada? Põe-me esse gajo na rua!
MARQUES – E quem é que o tira de lá? (…)
RODRIGO – Mas se é assim, porque é que te meteste na política?
MARQUES – Isso me pergunto eu muitas vezes e não o chego a descobrir.
RODRIGO – Já que ocupas o cargo, faz a tua obrigação! Põe o primeiro ministro na rua e pronto!

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