Padre Manuel Francisco de Miranda

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“Uma biografia simples e despretenciosa, mas cimentada numa pesquisa feita de estudo aturado e sede de saber.
(…)
Uma biografia que, como todas as biografias, vai de mãos dadas com uma auto-biografia. A do autor. Porque aqui estão as raízes, porque aqui estão as fontes, porque aqui estão as determinâncias que conduzem os homens.
De mãos dadas, de facto, um homem do passado, e um homem do presente, sem outro atributo que o amor pelas origens de um e de outro. É que homens e outras circunstâncias se cruzaram para que tivessem existido o tempo do Pe. Miranda e o tempo do Autor.”

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Cândido A. Vieira CARVALHO

Prefácio

Sempre nutri um certo afecto e admiração pelo nome do Pé. Manuel Francisco de Miranda, pois a minha avó Ermelinda Ribeiro de Miranda trazia sempre à memória, nos célebres serões familiares j unto à lareira, a expressão moral deste homem que soube aglutinar simpatias, numa época de conturbadas lutas ideológicas. E elas não deixaram de se reflectir no seio da família, (tendência republicana de seu irmão António Francisco de Miranda, Tio e padrinho de minha avó, na época Sub-Chefe de Fiscalização), além de abrir o caminho ao predestinado culminar da República em Portugal. Enquanto isso, o Pe. Miranda, sempre repartiu todas as suas motivações e anseios pela causa monárquica, não deixando contudo de colocar a família, acima dos preceitos ideológicos.

Apesar de estarem em campos opostos, a inabalável personalidade do Pe. Miranda, soube imprimir uma filosofia própria para que a paz e a harmonia no lar não sucumbissem às contradições da época.

Decorri várias etapas – desde os serões em família – até ao agrupar de testemunhos e documentos, tendo sempre em mente a descrição real da vida e obra deste emérito latinista, que durante cerca de uma vintena de anos calcorreou as rústicas calçadas da cidade dos arcebispos.

Mesmo aqueles que não o conheceram, ouviram da boca de antigos professores referências grandemente elogiosas. Um dia, o Dr. Euclides Rios, antigo seminarista e conceituado professor de Português, meu grande amigo disse-me: “Relativamente ao Padre Manuel Francisco de Miranda, ouvindo este nome, a primeira coisa que me surge, escrito na minha memória, é tê-lo lido no cabeçalho da minha Gramática Latina que, durante tantas décadas, serviu de base ao estudo de Latim em todos os estabelecimentos de ensino portugueses, sobretudo nos seminários, mas também nos liceus. Quanto a referências pessoais, é evidente que não as posso ter, o Sr. Padre Miranda morreu em 21 e eu ainda não era nascido. No entanto, recordo-me de ouvir palavras de apreço, em relação a este latinista, da boca de meus antigos professores.

Recordo sobretudo o Sr. Padre Torres, também um latinista insigne, que a cada passo lhe elogiava o mérito de latinista, de investigador, e também de homem persistente, e inclusivamente de homem de carácter.

O Cónego Arlindo Ribeiro da Cunha, que refundiu e actualizou por várias vezes a Gramática Latina do Padre Manuel Francisco de Miranda, era da mesma opinião.

Pessoalmente, comparando a sua gramática, também com o homem que, enfim, estudou latim, com as gramáticas que foram saindo depois dele, ainda continuo a dizer que esta gramática do Padre Manuel de Miranda, é a mais informativa e mais completa, é portanto aquela que, embora sem um estatuto organizado, como outras que há mais pequenas, fornece maior alimento de instrução da língua latina, a quem a quiser estudar”.

Se por vezes, impulsionado por razões várias, levei a bom termo o meu entusiasmo nesta árdua tarefa, outras, desmotivado pela dificuldade de palpar os acontecimentos, vacilei. Mas algo que transcende a minha própria vontade, deu-me sempre motivos para não escamotear as razões que me levaram a reunir e a compilar esta importante matéria. Queria fazer ressurgir do tempo, a memória do Padre Manuel Francisco de Miranda, respeitada e lembrada por várias “gerações”, como insigne latinista porque, apesar da sua perseverança, carácter e mérito, como homem que estudou e investigou esta língua clássica, o Dr. Fortunato de Almeida, da Academia de Ciências de Lisboa (1869 – 1933), na sua História da Igreja em Portugal, ignorá-lo-ia simplesmente:

“Das cinco ou seis gramáticas latinas que em Portugal alcançaram celebridade e grande voga nas escolas, só uma não é de autor eclesiástico (Dr. Joaquim Alves de Sousa). Depois da gramática latina do Padre Manuel Álvares, veio a do arcediago Luís António Verney e do Padre José Vicente Gomes de Moura. Todos estes foram latinistas distintos, que deixaram do seu alto saber inolvidáveis monumentos.

Aos nomes referidos podem acrescentar-se tantos outros não menos ilustres, como o Padre Francisco José Freire, o Padre Custódio José de Oliveira, o Padre Jerónimo Soares Barbosa e, mais modernamente, o Padre José Inácio Roquete”.

Quantas mais dificuldades sentia em reunir todas as pedras deste puzzle, mais aumentava a minha fé, e nem a mentalidade de certos obscurantistas da família, me demoveram desta cavalgada. Senti que essa era a vontade espiritual do Pe. Manuel Francisco de Miranda.

Passei noites e noites a fio à volta de documentos e fotografias, fui várias vezes a Braga, e à medida que ia traçando o itinerário, parecia reconstituir mais um lar de uma graciosa aldeia do Minho, deste lindo Minho que tanto amamos.

Sem procurar substituir-me ao meio intelectual e literário que me rodeia, como simples e modesto redactor que sou, aqui deixo este não menos modesto trabalho, que longe de se esgotar em si mesmo, pretende apenas reactivar a memória e o nome do Padre Manuel Francisco de Miranda, levando a chama da fé a todos os lares, principalmente aos dos nossos familiares, que bem podem orgulhar-se desta extraordinária e “imaculada” personalidade.

Bem hajam todos aqueles que me ajudaram.

O Autor

NOTA INTRODUTÓRIA

Fazer uma biografia é intento sempre arriscado pois é seguir o fio de ouro de uma vida através das suas intrincadas e invisíveis voltas que recuam e se escondem no tempo e nos espaços.

E essa tentativa somente recupera os claros-escuros de alguém irrepetível, esse alguém que, por isso mesmo, ficará sempre aquém ou além dos vestígios que tocamos e amorosamente recolocamos em lances aprisionados pela palavra sempre falível, sempre imperfeita, sempre incompleta e, claro, sempre traiçoeira.

Logo, uma biografia, é um espelho e não a pessoa; é a nossa visão e não-a fonte.

De qualquer modo, como em todas as biografias, aqui está o fruto de trabalho aturado através dos escaninhos do passado, pelas veredas e encruzilhadas do passado de um homem. É, naturalmente, uma obra imperfeita, como são todas as obras geradas pelo engenho humano. Mas as imperfeições são amaciadas pelo amor da busca, pela ânsia de encontrar. E esta biografia é, sem qualquer dúvida, um acto de amor pois, em todo périplo pela vida de um homem (o Pe. Miranda), existem as essências e substâncias de que é feito o amor: a melancolia, a insatisfação, a saudade. E uma paixão funda que arde e alimenta as distâncias entre quem ama e quem é objecto desse amor.

Esta não é uma biografia dos nossos dias, do nosso mundo, das nossas presentes atitudes mentais colectivas. Hoje são outras as dimensões requeridas para uma biografia, todos sabemos. Esta é, porém, uma visão que tenta exumar um homem e uma obra de modo a que permaneça a obra e o homem. E não é fácil falar de um homem sem enredá-lo nas resplandecentes construções literárias que reconstroem, não o homem, mas um mito. Não é fácil íalar, todos sabemos, de um homem real que viveu longe dos nossos dias e, por isso mesmo, ultrapassa os limites da realidade que entendemos. Bem mais fácil é reinventar cobrindo de fantasias o nosso imaginário. Bem mais simples é tornar a fantasia real do que tornar credível a realidade. É que nos habituámos a recobrir de inscrustrações o nosso quotidiano sem horizontes e a mascarar as comuns realidades com as tintas do» mercados das nossas vidas. O real só existe se o retocarmos. Por isso, o real, se realmente aparece e transparece, surge-nos pobre, quase rústico.

E, nestes dias que são os nossos, que nos interessa a vida de um padre do passado, se são invisíveis e de pouco ou nulo interesse as vidas dos padres que connosco atravessam os percursos sinuosos desta vida, poderá perguntar-se?

Que interesse tem esta biografia, realmente, se são tantas as coisas e as criaturas que, pelo tempo, vão passando sem que deixem marcas da sua passagem?

E, no entanto, eis esta biografia do Pe. Miranda. Cem anos depois da sua ordenação sacerdotal. Uma biografia simples e despretenciosa, mas cimentada numa pesquisa feita de estudo aturado e sede de saber. Eis a biografia de um homem e de’um padre que, enredado nas vidas de outros homens, padres ou não, os retrata também, os retira do anonimato profundo do tempo que passa e se esvai. E eis o espaço físico onde se movimentaram todos. E eis as pequenas coisas. As simples realidades que rodearam e alimentaram as suas vidas. Ei-los aqui, ainda que momentaneamente, ainda que de passagem. Mas ei-los!

E depois, o que é a nossa vida individual e colectiva sem as vidas individuais que se tornam colectivas pelo simples facto de que se entrecruzam os homens em recíproca tensão se condicionam ou determinam as suas vidas?

Que é do tempo por onde passamos? Que são os espaços por onde passamos, também? E quem somos nós que vamos passando nas nossas apatias, nas nossas indiferenças?

Talvez, por isso, por causa da dimensão efémera da nossa existência, pretendemos recuperar a existência daqueles que nos antecederam e preencheram o tempo antes de nós. Talvez, por isso, a necessidade de perpetuar as coisas transitórias. As nossas e as dos outros.

E eis a biografia de um homem como necessidade de outros homens. Se calhar, a tentativa de eternizar uma vida, simples vestígio da eternidade. Santo Agostinho “descobriu” esse tempo de cada qual com um elo que liga cada qual aos seus ascendentes e aos seus vindouros. Vogando nestes fogachos que sào as nossas vidas, queremos avistar um ponto onde fixemos os sinais que nos orientem para a eternidade do tempo e das coisas. O autor encontrou um dos sinais: o Pe. Miranda! E nós, no Pe. Miranda, necessariamente, encontraremos o mesmo norte, porque estamos embarcados na mesma barca da eternidade.

Um ponto estável, esta biografia. Porque fala de um homem (de muitos homens, afinal), homens falíveis, comuns, que viveram sem lances grandiosos, sem resplandecências, sem cores mitológicas. Daí a sua credibilidade. Daí a sua proximidade daqueles que, vivendo agora que eles já não vivem esta dimensão de vida, do mesmo modo são comuns mortais cumprindo o seu tempo até que ultrapassem as barreiras limitadoras desse tempo e os encontrem nos caminhos sem tempo da eternidade.

Uma biografia. Do Pe. Miranda. Manuel Francisco de Miranda, de seu nome. Uma biografia que, como todas as biografias, vai de mãos dadas com uma auto-biografia. A do autor. Porque aqui estão as raízes, porque aqui estão as fontes, porque aqui estão as determinâncias que conduzem os homens.

De mãos dadas, de facto, um homem do passado, e um homem do presente, sem outro atributo que o amor pelas origens de um e de outro. É que outros homens e outras circunstâncias se cruzaram para que tivessem existido o tempo do Pe. Miranda e o tempo do Autor.

Na verdade, e de facto, somos irmãos com dons diversos e diversos tempos, mas todos intervenientes numa eternidade comum. Na verdade, e de facto, todos juntos, somados e esvaídos as nossas efémeras peregrinações na voragem dos tempos, concretizamos a eternidade.

E eis, por causa disso, a biografia do Pe. Miranda.

Dela pouco se disse. Navegamos ao correr das sombras e das luzes que são mais nossas do que o biografado. Por isso, esta biografia, deve cada um abeirar-se à medida da sua sensibilidade. Talvez que cada qual encontre, por entre os passos do Pe. Miranda, o eco dos seus próprios passos.

Uma biografia, pois. Do Padre? Do Latinista emérito?

Decerto, e afinal, a biografia de um homem, Manuel Francisco de Miranda, que se tornou padre e latlnista e, assim, cumpriu o seu tempo.

Fernando Melim

Escritor

Excertos

Que ciência envolvente

Na memória paciente

Da sua pequena estatura.

Foi um pequeno grande homem,

Quando nos tempos que nos consomem

Há grandes, mas de pequena bravura.

Viu-se espoliado da igreja

Porque a razão da inveja

Fez da república um baluarte.

Morreu monárquico…

E que triste fico

Quando ouço em toda a parte

O pobre, grande-rico,

Fazer do progresso

A sua razão, a sua vida, a sua arte.

E, quando regresso

Às razões do tempo presente

Vejo como é difícil,

Só e simplesmente

Ser homem

Como o Pe. Miranda!

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