Antologia de Poetas do Alto Minho

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Desta Antologia de poetas do Alto Minho constam 90 poetas que vão do século XII até aos nossos dias. Segundo o autor, o critério para a selecção dos autores inseridos neste volume foi que cada um tivesse, no mínimo, 60 páginas publicadas.
Os poetas surgem por ordem alfabética e, entre os vários nomes, podemos encontrar António Feijó, Castro Gil, Alfredo Reguengo, Francisco Sampaio, Maria Emília Sena de Vasconcelos, Pedro Homem de Melo, etc.

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Manuel Rocha

Prefácio

Porque poderá espontâneamente aflorar nos leitores algum princípio de ajuizamento vão sobre pretensiosismos latentes na datação destas palavras, aviso desde já não existir, por um lado, qualquer base para tal, dado tratar-se de eventos conhecidos, quais o convite da Universidade de São Paulo, no Brasil, para a participação na V Reunião Internacional de Camonistas aí levada a efeito, e na Universidade de Campinas, desde 20 a 24 de Julho, assim como a minha imediata deslocação a França e Alemanha; enquanto por outro lado o próprio facto da data, entrelaçando singelamente duas nações distantes, se coaduna à maravilha com a índole andarilhante e o ânimo internacionalmente solidário do Compilador desta antologia, a quem não raro só será possível contactar a milhares de quilómetros do local onde se esperava encontrá-lo. Parece-me também que, depois da introdução erudita e sobejamente elucidativa, a vários níveis, de Laureano Santos, era decerto bem prescindível estoutra. Desculpá-la-á, porém, a sua mesma motivação, a entroncar no aplauso e entusiasmo com que sempre o acompanhei, embora de longe, nas suas andanças por terras e gentes, bibliotecas municipais e particulares, em ordem à concretização da obra. Se há livros que ficaram célebres simultâneamente pelos textos e respectivos prefácios, como a História do Mundo(1614) de Sir Walter Raleigh com 50 páginas anteloquais, o Crommwell(1827) de Victor Hugo com 51, as Folhas de Erva(1855) de Walt Whitman com 22, na maior parte dos casos isso não acontece. Muito menos neste, visto estar em causa uma antologia, isto é, um volume de cujos critérios de textualização a divergência não sómente é possível quanto até naturalmente aceitável, mas que apenas ousará discuti-los quem se esquecer da qupta-parte de subjectividade ou perspectivação apriorística que inevitavelmente lhe subjaz na génese. Descontada entretanto por todos, a começar pelos mais rigoristas, essa dose percentual, de resto detectável na generalidade destes trabalhos, convenha-se em que, e não é pedir nada de extraordinário, uma antologia vale essencialmente pelo que é em si, sem deixar de acidentalmemte comportar outros valores quando algo mais, como esta, pretende ser: na realidade, uma homenagem das terras de Viana do Castelo àqueles que em verso as amaram e engrandeceram, seja os nela nados e criados, seja os tão-só criados e maternalmente acolhidos no último sono. “The proof of a poet is that his country absorbs him as affectionately as he has absorbed it”- asseverou Whitman na última frase do citado prefácio. Ora creio que, primordialmente e no aludido plano da secundariedade, a presente colectânea de Laureano Santos quer traduzir,num português vivencialmente sentido e gratíssimo, esta afirmação e experiência whitmanianas. Mas o Compilador, que nos Estados Unidos já comeu o pão que o diabo amassou, como tantos irmãos nossos emigrados pelos cinco continentes, talvez pretenda, com esta obra testemunhal, lançar um pouco de água na fervura de outro excerto prefacial do mais original dos poetas de além-Atlântico:”The Americans of all nations, at any time upon the earth, have probably the fullest poetical nature. The United States themselves are essentially the greatest poem”. Com efeito, sem se interrogar se, quando dizemos ser Portugal um país de poetas, repetimos um lugar-comun ou fazemos um plagiato ao autor de Leaves of Grass, Laureano Santos comprova-nos aqui, através destas laudas que,na hipótese de a parte ser da mesma natureza do todo, então o dito lugar-comum constituirá a mais pura verdade incontroversa, porquanto o Alto-Minho assim se apresenta, em rápida amostragem, como um alfobre poético de plurifacetada vitalidade, um jardim nemoroso de vates enraizado em larga tradição de séculos. Se o genótipo de um povo há-de buscar-se na raça, o fenótipo tranparece e visiona-se na cultura. Culto como é, embora formado sobretudo na Universidade da vida, Laureano Santos bem o compreendeu, assim como as forças-vivas e associações culturais vianesas, que irmanadamente o ajudaram nesta iniciativa, quer confiando na sua capacidade de realização quer viabilizando-a monetariamente. E nisto se dignificaram todos, pois, mau grado as limitações que se lhe assaquem, trata-se, ao que nos parece, de uma obra pioneira entre nós, a recordar que ao Portugal letrado também pertence o topo alto-minhoto, poucas vezes lembrado pelos centros decisores ou teledifusores, salvo como região de lavoura retalhada, emigrantes briosos e afamados ranchos folcolóricos. Segundo leio na bibliografia do Compilador, ocupará esta colectânea o sétimo lugar entre os seus livros, incluindo no cômputo a versão-acréscimo francesa de Poesia de um Louco, saído na cidade de Viana do Castelo em 1984 e há pouco publicada aqui em Paris, na colecção Poètes du Temps Présent, pela editora La Pensée Universelle, sob o título de Poésie d’un Fou. Obras em prosa e verso através das quais Laureano Santos, desde 1965, então no Brasil, expressa a sua mensagem anti-individualista e inconformista,exaltadora da justiça, liberdade e solidariedade entre todos os povos, a começar pelos mais deserdados ou esquecidos. Nesta linha deve colocar-se a antologia que agora nos oferece. Pelo que,com razão tácita e natural simpatia de Montaigne, se me concederá terminar por estas palavras, na escrita desse tempo: ” Cecy, lecteurs, est un livre de bonne foy ” São Paulo – Paris 23.VII – 8.VIII.87 AMADEU TORRES ( CASTRO GIL)

Excertos

HUMORISMO

Pediste-me um soneto avermelhado,
Como se eu dispusesse duma cor,
Assim como qualquer vulgar pintor
Que um quadro desenhasse aquarelado.

Porém como Dirceu não hei topado
As tintas de Marília, o seu amor,
P’ra que possa dizer-te sem rumor
O soneto picante e desejado.

Depois, tu bem o sabes, que a malícia
– Fica dito isto aqui muito entre nós –
Requer ocasião, certa perícia…

Estarmos muito juntos, bem a sós…
Sem alarde que crie uma notícia…
O resto eu to direi de viva voz…

M. L. Afonso Ferreira
(Viana do Castelo – séc. XIX – XX )

 

VELEIRO

Move-se devagar, no mar
Dos meus secretos desejos,
Nas sombras vai deslizando,
Navegando,
O meu secreto veleiro.

Meu veleiro de três mastros
Branco da proa à ré,
Desafiando as tormentas,
Desafiando as marés,
Vai seguindo de mansinho
O seu destino

Meu veleiro de três mastros
Branco da proa à ré
Vai carregado de estrelas,
De infinitos e de ânsias,
Desafiando as distâncias,
Vai carregado de sóis.

Meu veleiro de três mastros
Branco da proa à ré,
Desafiando as tormentas,
Desafiando as marés,
Vou contigo, emigrada
Procurando sem descanso
A nossa doca inventada!

Tereza Mello
(P.da Barca – Contemporânea)
(do livro: As Palavras Fechadas)

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